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A CIÊNCIA É UMA RELIGIÃO?

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  “A ciência, como qualquer sistema de conhecimento, parte de pressupostos que não são demonstrados pelo próprio método científico. A diferença é que esses pressupostos são metodológicos e permanecem, em princípio, abertos à crítica.”   Existe uma afirmação que parece, à primeira vista, absurda: a ciência é uma religião. A ciência moderna nasceu justamente em oposição a muitas formas de autoridade religiosa, substituindo dogmas por experimentação, tradição por investigação e revelação por evidências observáveis.  A medicina, a física, a química, a astronomia e a biologia produziram conhecimentos capazes de transformar radicalmente a vida humana. Portanto, dizer simplesmente que “ciência é religião” seria uma comparação superficial.  A questão se torna muito mais interessante quando fazemos uma distinção fundamental: ciência enquanto método não é religião; porém, ciência enquanto instituição social, autoridade cultural e visão de mundo pode desempenhar funções semelha...

A Cultura da Patologização

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    Talvez uma das características mais marcantes do nosso tempo seja a necessidade de transformar o sofrimento humano em diagnóstico, a insegurança em trauma, a tristeza em doença e qualquer dificuldade emocional em uma ferida que precisa ser encontrada e curada.    Somos constantemente ensinados a olhar para dentro de nós em busca de alguma coisa quebrada.    Se sofremos, deve existir uma causa escondida. Se temos medo, carregamos um trauma. Se não conseguimos confiar, existe uma ferida de traição. Se buscamos reconhecimento, existe uma ferida de rejeição.  Aos poucos, a linguagem da saúde mental deixa de ser apenas uma ferramenta para compreender condições realmente incapacitantes e passa a ser utilizada para interpretar praticamente qualquer experiência humana.    O problema não está em reconhecer doenças psicológicas reais, nem em procurar ajuda quando o sofrimento ultrapassa aquilo que conseguimos administrar sozinhos. O problema começa...

O Narcisista Religioso

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     Henrique era o tipo de homem que dificilmente despertaria desconfiança. Na igreja, chegava cedo, ajudava a organizar as cadeiras, carregava caixas, oferecia carona, cumprimentava os mais velhos e estava sempre disposto a resolver algum problema. Tinha um jeito tranquilo, falava sobre família, fé e responsabilidade e parecia genuinamente preocupado com as pessoas. Sua mãe falava dele com orgulho: “Meu filho sempre foi um menino bom”. Para quem observava de fora, Henrique parecia representar exatamente aquilo que uma comunidade religiosa costuma admirar: dedicação, serviço, disciplina e bons modos. O que quase ninguém percebia era que ele havia aprendido muito cedo que parecer bom também poderia ser uma forma poderosa de conquistar confiança e, depois, influência.      Desde criança, Henrique havia associado amor à aprovação. Sua mãe valorizava sua obediência e frequentemente transformava seus sacrifícios em provas de caráter. Quando deixava de sair para...

Capital intelectual: quando o valor não tem preço

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Vivemos numa época curiosa. Quase tudo pode ser transformado em capital. O corpo virou capital. A beleza virou capital. A simpatia virou capital. A quantidade de seguidores virou capital. Até a vida amorosa, dependendo do ambiente, pode funcionar como uma espécie de currículo. Há pessoas que não entram em uma sala; entram carregando sinais. Roupa, corpo, dinheiro, profissão, contatos, viagens, parceiros, lugares frequentados. Tudo comunica alguma coisa. Tudo pode produzir valor. E então existe o capital intelectual. Esse é menos simpático porque dá trabalho. Capital intelectual não é simplesmente saber muitas coisas. Aliás, uma pessoa pode passar a vida acumulando informação e continuar intelectualmente medíocre. Há gente que conhece centenas de autores, cita filósofos, possui uma biblioteca invejável e não consegue pensar uma ideia própria. Informação é matéria-prima. Capital intelectual é a capacidade de fazer alguma coisa com ela. É compreender. Comparar. Desconfiar. Perceber padrõe...

A aberração jurídica do PL 4/2025: quando o cônjuge deixa de ser herdeiro necessário

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  Há propostas legislativas que podem ser discutidas como simples escolhas de política jurídica. Outras, porém, produzem uma ruptura tão profunda com a lógica de proteção construída pelo próprio ordenamento que merecem ser examinadas com extremo cuidado. É nesse segundo grupo que se insere a proposta contida no PL 4/2025, que pretende retirar o cônjuge do rol de herdeiros necessários do Código Civil. O ponto não é afirmar que marido ou esposa devam necessariamente receber toda ou parte determinada da herança em qualquer circunstância. O problema é muito mais estrutural: retirar do cônjuge a condição de herdeiro necessário significa retirar dele a garantia de participação mínima na herança que a legislação atualmente assegura. Pelo sistema vigente, o art. 1.845 do Código Civil estabelece que são herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. Essa condição não é meramente simbólica. Ela significa que metade da herança, a chamada legítima, permanece juridicamente p...

Quando a esperança deixa de ser uma mentira

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     Há uma crítica à literatura de autoajuda que considero necessária. Também desconfio de livros que transformam a existência em um manual de instruções, prometem felicidade como consequência de disciplina, vendem fórmulas universais para problemas singulares e fazem do fracasso uma espécie de culpa moral.       Existe algo profundamente injusto em dizer a alguém que basta mudar sua mentalidade quando aquilo que ela enfrenta talvez não possa ser resolvido por nenhuma mudança de mentalidade. A vida não é uma equação psicológica esperando pelo pensamento correto.      Ainda assim, não consigo concluir que toda literatura de autoajuda seja uma forma de descompaixão ou uma mentira necessária para alimentar o desespero humano. Talvez o problema esteja em outro lugar: na necessidade contemporânea de acreditar que precisamos ser salvos.      Salvar-nos de quê? Da tristeza, da ansiedade, da frustração, da solidão, do fracasso, d...

O Artista em Busca de Palco: quando a necessidade de ser visto esconde o medo de ser rejeitado

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      O ser humano é decerto complexo para ser compreendido por uma única característica ou por um comportamento isolado. Uma pessoa pode ser comunicativa, sociável, expansiva e gostar de estar em evidência, mas isso não significa que exista uma única razão por trás dessa maneira de agir. É justamente a partir dessa perspectiva que sugeri um novo modelo interpretativo da personalidade, desenvolvido a partir da correspondência entre fatores de personalidade, feridas emocionais e outros elementos.      Tal construção não pretende substituir modelos psicológicos existentes, nem oferecer diagnósticos clínicos. Trata-se de uma construção interpretativa e simbólica que busca permear e ampliar a compreensão sobre os diferentes padrões que podem surgir quando determinados traços de personalidade se encontram com diferentes feridas emocionais, somadas a outros elementos.      O modelo Big Five, amplamente utilizado para compreender dimensões da person...