Quando a esperança deixa de ser uma mentira



    Há uma crítica à literatura de autoajuda que considero necessária. Também desconfio de livros que transformam a existência em um manual de instruções, prometem felicidade como consequência de disciplina, vendem fórmulas universais para problemas singulares e fazem do fracasso uma espécie de culpa moral. 

    Existe algo profundamente injusto em dizer a alguém que basta mudar sua mentalidade quando aquilo que ela enfrenta talvez não possa ser resolvido por nenhuma mudança de mentalidade. A vida não é uma equação psicológica esperando pelo pensamento correto.

    Ainda assim, não consigo concluir que toda literatura de autoajuda seja uma forma de descompaixão ou uma mentira necessária para alimentar o desespero humano. Talvez o problema esteja em outro lugar: na necessidade contemporânea de acreditar que precisamos ser salvos.

    Salvar-nos de quê? Da tristeza, da ansiedade, da frustração, da solidão, do fracasso, do envelhecimento, da rejeição, da perda, da morte? Se a promessa for eliminar tudo isso, então realmente estamos diante de uma fraude. Não existe método capaz de nos retirar da condição humana. Nenhuma técnica psicológica, filosofia ou religião deveria precisar mentir para oferecer algum sentido à existência.

    Só que existe uma diferença entre prometer salvação e oferecer compreensão.

    Talvez seja justamente aí que a literatura de transformação encontre sua legitimidade. Um livro não precisa dizer que você será feliz. Pode simplesmente ajudá-lo a compreender por que determinadas experiências se repetem, por que certos medos governam suas escolhas, por que algumas relações despertam feridas antigas ou por que continuamos procurando no mundo aquilo que nunca aprendemos a oferecer a nós mesmos.

    Isso não é fabricar esperança. É aumentar consciência.

    A diferença parece pequena, mas não é. A esperança fabricada diz: “você pode conseguir tudo aquilo que desejar”. A consciência responde: “talvez você não consiga, mas pode compreender melhor aquilo que está fazendo com o que recebeu”. A primeira vende controle. A segunda reconhece limites.

    É por isso que não vejo necessariamente contradição entre admitir que a vida contém sofrimento e acreditar que uma pessoa pode mudar. O sofrimento pode ser inevitável sem que todas as nossas respostas a ele também sejam. Não escolhemos tudo o que nos acontece, mas participamos, em alguma medida, da maneira como interpretamos, repetimos e elaboramos aquilo que nos acontece.

    Existe uma diferença enorme entre negar a dor e aprender com ela.

    O problema do otimismo superficial não está em acreditar que a vida pode melhorar. Está em transformar essa possibilidade em obrigação. Quando alguém diz que precisamos ser positivos o tempo inteiro, acaba transformando a tristeza em fracasso. Quando afirma que tudo depende de nós, transforma circunstâncias que não controlamos em culpa pessoal. Quando promete que toda dor possui um propósito, corre o risco de transformar sofrimento em argumento religioso, psicológico ou comercial.

    Não precisamos disso.

    Talvez seja possível construir uma esperança menos confortável e, justamente por isso, mais honesta.

    Uma esperança que não dependa da certeza de que tudo dará certo. Uma esperança que sobreviva à possibilidade de dar errado. Uma esperança que não seja uma previsão sobre o futuro, mas uma disposição diante do presente.

    É possível continuar mesmo sem garantias.

    Aliás, talvez essa seja a única forma adulta de esperança.

    A criança espera porque acredita que alguém virá resolver. O adulto começa a compreender que ninguém virá. Isso não significa necessariamente desespero. Pode significar responsabilidade.

    Há uma liberdade particular em descobrir que não precisamos ser salvos.

    Quando abandonamos a expectativa de que a vida finalmente se torne aquilo que imaginamos, começamos a perguntar o que pode ser feito com aquilo que ela efetivamente é. 

    A perda deixa de ser apenas aquilo que interrompe nossos planos. O fracasso deixa de ser uma sentença sobre nosso valor. A imperfeição deixa de ser uma doença a ser curada. A própria finitude pode deixar de ser apenas uma ameaça e passar a fazer parte daquilo que torna cada experiência irrepetível.

    Talvez amadurecer seja justamente isso: abandonar a fantasia de uma existência sem sofrimento sem abandonar a possibilidade de uma existência com significado.

    Por isso, minha divergência em relação à rejeição indiscriminada da autoajuda não está em defender seus excessos. Pelo contrário. Eu também rejeito o mercado da felicidade instantânea, a espiritualidade transformada em produto, a psicologia reduzida a frases de efeito e a promessa de que qualquer pessoa pode se tornar aquilo que deseja se trabalhar suficientemente sua mente.

    Não acredito nisso. Acredito em algo menos sedutor.

    Acredito que somos condicionados por nossa história, pela cultura, pelos vínculos, pelo corpo, pela personalidade e por circunstâncias que jamais escolhemos. Acredito que carregamos aspectos de nós mesmos que não compreendemos completamente. Acredito que existem perdas que não serão compensadas, perguntas que permanecerão sem resposta e sofrimentos que não possuem nenhuma finalidade escondida.

    Também acredito, porém, que compreender esses limites não nos condena à imobilidade.

    É possível mudar sem acreditar que podemos mudar tudo. É possível buscar ajuda sem acreditar que precisamos ser consertados. É possível desejar uma vida melhor sem acreditar que uma vida boa seja uma vida sem dor.

    Talvez seja essa a distinção que falta à discussão: existe uma literatura que quer nos convencer de que podemos vencer a existência e existe outra que tenta nos ensinar a habitá-la.

    A primeira me interessa pouco. A segunda me interessa profundamente.

    Porque talvez a finalidade de um bom livro não seja nos salvar daquilo que somos, mas nos colocar diante de nós mesmos com um pouco mais de lucidez. Isso já pode ser uma forma de esperança.

    Não a esperança de que alguém virá nos salvar.

    A esperança, muito mais modesta e muito mais difícil, de que ainda podemos aprender a viver sem precisar ser salvos.

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